Nesta edição conversamos com Andersen Viana, importante músico, maestro, compositor e produtor cultural. Figura importante no cenário musical de Minas Gerais, ele se projetou nacional e internacionalmente, tornando-se um importante compositor da atualidade. Fiel às suas convicções, ele nos fala com objetividade e franqueza, de suas impressões acerca de temas polêmicos que permeiam o dia-a-dia musical .

MM – Cada vez mais presenciamos a necessidade de envolvimento do artista nas questões de produção e gerenciamento de carreira. Quais são suas impressões sobre este tema e como você vê o mercado musical na atualidade?

AV - Este ente assombroso intitulado por "mercado" é algo assustador para as mentes mais sensíveis. O que observei em 32 anos de atividade é que aquele que produz conhecimento (neste caso, estruturas sonoro-rítmicas e lítero-musicais) é a ponta da pirâmide, a parte mais fraca da cadeia produtiva. Este espaço seria pequeno para um assunto tão vasto, que está relacionado diretamente a fatores tais como a economia, política e educação, abrangendo áreas tão vastas tais como a de relações públicas e mídia.

MM - Você tem uma carreira internacional como compositor, com várias premiações, e uma obra já consolidada no mercado editorial e fonográfico.
Em sua opinião, quais são as perspectivas profissionais para jovens compositores, considerando a indefinição do mercado e a proliferação de novas mídias, em contraposição ao público escasso nos teatros?

AV - Apesar de parecer inserido, sempre fui um outsider, ou seja, nunca consegui me inserir do modo que havia previsto quando comecei os meus esforços intelectuais há 32 anos atrás. Todos os discos que gravei, produzi sozinho, bem como um material (cerca de 267 obras) que abrange gêneros musicais como o experimental, vanguarda, MPB, Jazz, e música para filmes (que pode conter absolutamente todos juntos).
Algumas partituras editadas apenas no exterior, foram fruto de árduos esforços pessoais, relações públicas através, também da internet, bem como do resultado de concursos.
As perspectivas para os jovens compositores são ainda melhores do que quando comecei, na década de 1970. Porque, além de se possuir acesso a praticamente toda a teoria e prática produzida pela humanidade, existem muitas possibilidades de inserção dedicadas apenas aos jovens com delimitação de faixa etária.

MM – Como funciona o mercado editorial no Brasil e exterior para aqueles que compõem música erudita nos tempos atuais? Existe controle sobre direitos autorais?

AV - O mercado editorial no Brasil para partituras, praticamente não existe. Isto se deve ao fato de que tudo é copiado pelas máquinas reprográficas ao custo de R$0,10 cada página. Não existe negócio porque todas as instituições de ensino possuem uma fotocopiadora dentro das bibliotecas. Quem seria o louco de criar uma empresa para publicar música impressa, sendo que todas as universidades patrocinam a cópia desautorizada? Além disto, a grande maioria dos músicos, seja no âmbito popular ou erudito, do Brasil não tem facilidade com a leitura de partituras – o que difere de outros países – sendo assim, eles primam mais pelo fator audição em detrimento da visão analítica estrutural da obra musical (o que até certo ponto é válido), contudo, alguns aspectos muito interessantes da obra se perdem com esta prática. O controle dos direitos se faz através das sociedades a que se filia e que se reportam ao mal falado ECAD. No Brasil são dez (o que apenas enfraquece os autores brasileiros frente ao mercado internacional). São elas: ABRAMUS, AMAR, SBACEM, SICAM, SOCINPRO, UBC, ABRAC, ANACIM, ASSIM, SADEMBRA. Alguns funcionários destas organizações são extremamente arrogantes. O governo federal poderia estudar uma forma de estatizar isto, criando, a exemplo da Itália com a SIAE, uma grande agência estatal de controle autoral (todos os tipos), com ingerência das diversas esferas dos respectivos poderes, tais como o MP, caso algo errado aconteça. Não podemos dizer que o Brasil é um primor neste quesito... Do jeito que está, para mim, é coisa de Al Capone...

MM – Depois de compor e produzir intensamente música para cinema, o que você considera como essencial para que uma música esteja incorporada à narrativa cinematográfica?

AV - Este espaço também seria pequeno para um discurso que é bastante complexo, pois neste caso temos a junção dos elementos constitutivos musicais (melodia, contraponto, harmonia, instrumentação, orquestração, mais modernamente efeitos sonoros complexos, etc.) junto ao sentido de uma cena ou personagem. Na Escola Livre de Cinema (www.escolalivredecinema.com.br), oferecemos um curso que abrange de maneira mais detalhada, particulares da fusão da música com a visualidade.

MM – Você acha que é possível uma trilha contribuir para a grandeza de um filme e fazer sucesso, sem ter em sua estrutura uma beleza estética convencional (harmônica e melódica), já assimilada pelo espectador comum?

AV - Isto irá depender dos conceitos que se tem. O que é sucesso? Onde se quer chegar? Hoje tudo é relativo. Você pode encontrar grandes músicas em filmes medíocres e vice-versa. Recentemente vi o “Besouro”. Excelente filme e péssima música incidental. Chamaram três compositores e nenhum deles deu conta do recado. A obra audiovisual só perdeu (e poderia ter crescido 20% a mais!). Penso a música de cinema como música de cena, feita especialmente para determinados aspectos imagéticos, sensoriais, literários e emocionais, seja de uma cena específica, personagens ou mesmo para os créditos iniciais e finais do filme.

MM – Como você vê o quadro político/cultural da atualidade em Minas Gerais e Brasil?

AV - Está melhorando muito, quando comecei não existia o que existe hoje em matéria de apoio governamental. Era tudo apadrinhamento político, e todos da direita fascista. Uma vergonha. Alguns destes, hoje, recebem reconhecimento público e premiações em âmbito nacional com dinheiro público. Algo lamentável. Contudo, estou muito feliz com este progresso, mas precisamos nos equiparar aos nossos colegas europeus, canadenses, japoneses, norte-americanos... Para tanto temos que trabalhar muito mais duro ainda, bem como aumentar e democratizar os recursos para a área cultural e efetuar parcerias entre órgãos da educação e cultura em níveis local, regional, nacional e internacional.

Andersen Viana é Maestro - compositor e produtor cultural