Essa questões do mundo midiático versus arte são intrincadas até para quem vive de entendê-las. O inimigo, conhecido que é, sobrevive transitando nos limites de uma dúvida simples: inimigo de quem, cara pálida? A grande massa pátria não sabe – e é, sim, tratada como idiota há eras pelos organismos comandantes da mídia. Basta sentar-se em frente à tevê e assistir a um anúncio de cerveja, qualquer um. O mais interessante é que a moçada parece gostar quando exposta a tolices desse tipo; não lhes passa pela cabeça que a cena de um bando de sandeus apodrecendo – literalmente – enquanto enche a cara de cerveja na praia só pode ser produto de uma imaginação predisposta ao insulto. Os cervejeiros se submetem a esse e a outros papéis piores ainda, sem acusar o golpe, já que estão fortemente possuídos pela idéia de que o que aparece na tevê é bom e pronto, simples assim.

Temos acompanhado, com tristeza, a derrocada dos objetivos culturais do brasileiro. É por conta da falta de ideologias, dizem uns, da banalização das artes pela tevê e pela internet, dizem outros, da falta de referências culturais, arriscam alguns. A verdade é que, na escuridão educacional do país, cada segundo exposto na mídia é cuidadosamente pesquisado em grupos formados dentro da mais complexa tecnologia. Só vai ao ar uma bobagem dessas depois de 70% (no mínimo) de certezas empresariais de que cairá no gôto e no gosto de quem vai assistir. Tudo, sem exceção, é cuidadosamente idealizado e construído para se disputar tostão a tostão a grana que rola farta nos bolsos da choldra (estúpida?). Assim é na música também, claro. Pode-se afirmar que o sonho acabou, finalmente.   

Acho, na verdade (lembrando sempre de que quem acha, não sabe), que as rédeas da mídia só serão afrouxadas mediante uma ação a “la cavalo de tróia”, onde um ou mais grupos com ideais definidos e imunes às tentações corruptivas vigentes se imiscua entre os intestinos dos fazedores de acontecências e de ídolos – e com o tempo, imponha suas diretrizes, assumindo as alavancas mestras da locomotiva. Utopia? Talvez, mas é preciso lembrar que isso já aconteceu num passado recente. Todos, salvo honrosas exceções, corromperam-se miseravelmente no primeiro degrau.  

Criar movimentos de novos artistas que atraiam ilhas de admiradores, um por um, gota a gota, utilizando com inteligência os ícones já estabelecidos e os ídolos já feitos, é algo que acaba por chamar a atenção , não pela arte, mas pelo volume humano de consumidores; ignorá-los passa a ser um severo prejuízo financeiro. A música de Minas já conquistou uma fatia importante das atenções, graças ao fenômeno Bituca e seus correligionários do Clube da Esquina (entre os quais orgulhosamente eu me coloco). Hoje há “um dente encravado na garganta” dos mineiros da minha geração e das subseqüentes; uma certeza de que falta apenas dar um passo a mais para quebrar uma poderosa escrita de muitos anos. Um passo algo político e comercial, cuidadosamente pensado e repensado, sem procurar confusões com a grande alcatéia do poder, visto que precisamos dela viva e atuante para ser convencida – e vencida. Resistência é isso, nada mais. Precisamos de lideranças intelectuais renovadas e ativas, lembrando sempre que heroísmos isolados jamais conseguirão perfurar a armadura dos caras. Precisamos, de uma vez por todas, como um grupo estabelecido, botar pra ferver o panelão formado pelos morros que cercam Belo Horizonte, para que nossa nova música respingue pelo Brasil afora e se torne ainda mais necessária do que já é. Tem que botar a garotada mais nova para trabalhar – não pelo dinheiro, mas pela arte e pelo prazer de fazê-la. O dinheiro virá, se fizerem bem feito. 

Tavito é compositor, cantor, músico, publicitário e produtor de discos.