Os tempos são outros! Todos que de alguma forma estão ligados à produção cultural nos dias de hoje fatalmente se deparam com essa frase, ou com essa idéia, ao menos uma meia dúzia de vezes por dia. E essa é uma afirmação absolutamente inegável. Não serei eu aqui a querer contrariar evidências tão claras de que o mundo da cultura em geral, e particularmente o da música, sofreu uma brutal transformação nos últimos 10/15 anos. E essa mudança decorrente das possibilidades tecnológicas atuais é tão cantada e decantada - quase sempre com uma grande dose de deslumbramento contemporâneo - que nem se torna necessário dimensioná-la, ou enumerar as consequências práticas dela decorrentes no dia a dia de quem lida com o universo da música. Seria redundante. Sendo assim, vou direto à pergunta que me martela a cabeça constantemente, pergunta que certamente irá me colocar no papel de advogar a favor do rabudo, do canhoto, do pé-preto, ou seja, do popular diabo: até que ponto esses tempos são realmente novos, ou eles reproduzem as mesmas velhas questões recorrentes de tempos atrás, em um contexto diferente? Pensar sobre essa questão gera inevitavelmente uma série de outras, o que me traz a sensação quase física de me situar como artista em um terreno movediço, incerto, no qual o referencial de uma verdade única torna-se cada dia mais difícil.  

Antes de começar a árdua tarefa de tentar responder minha própria pergunta, é necessário dizer que o ponto de vista que me interessa é o da arte, o da produção que foge à esfera exclusiva do valor comercial. Não que a arte não deva ter valor comercial, pelo contrário. Mas quero fugir aqui da produção descartável, por ela cada vez mais se comportar com parâmetros distintos da arte que me interessa. Conceituar arte é algo bastante complexo, e mais ainda dizer o que é ou o que não é arte. Há sempre nesse discurso o risco do autoritarismo. No entanto é um risco que assumo, focando na produção que trabalha com um mínimo de método e criatividade, separando-a daquela que visa prioritariamente, ou mesmo exclusivamente, a exploração comercial. Assumindo novamente o risco da exclusão autoritária, é apenas a quem se ocupa dessa tarefa que considero e chamo aqui de artista.

Em primeiríssimo lugar, é importante considerar qual é a principal mudança decorrente desses novos tempos. Ela é gritante, literalmente gritante! Sim, porque é possível ouvir claramente o grito de uma brutal quantidade de lançamentos de novos trabalhos à busca de espaço de visibilidade. Essa produção se realiza quase na sua totalidade de forma independente, por meios próprios, ou via patrocínio com leis de incentivo, ou via pequenos selos que se pulverizaram nos últimos anos. E ela é abundante, a ponto de se tornar impossível acompanhar de perto seu crescimento, tamanha é a profusão de novos trabalhos. Minha geração lutou anos a fio pela possibilidade de romper com o cerco das grandes gravadoras, que detinham com exclusividade todos os meios de produzir um trabalho fonográfico, fato que alijava de imediato qualquer visão estética que não correspondesse aos interesses das majors. Nosso dilema era ou estar nas majors, ou amargar a total inexistência. Bem, com o auxílio da tecnologia, as gerações seguintes quebraram essa muralha, e superaram todas as expectativas no quesito diversidade, pois hoje praticamente toda a música que se queira ouvir está ao alcance de um ou dois cliques. 

É a partir daí que começam os meus questionamentos. Poderia-se considerar à totalidade dessa nova produção como produção artística? Estaria ela no seu todo capacitada a ser entendida como tal? Ainda que não movida por interesses puramente comerciais, seus criadores estariam minimamente preparados para a disputa de um mercado como profissionais de arte? Quando me refiro a profissionalismo, não quero me remeter à capacidade de lidar com promoção, distribuição, técnica de gravação, mídia, etc. É de criação artística que estou falando! E falo de profissionalismo na criação porque se está interferindo em um mercado profissional, em princípio território de quem sobrevive de sua arte. Será que o simples fato de alguém estar lidando com uma atividade artística faz dele necessariamente um artista? Por fim, a pergunta a meu ver mais incômoda e arriscada de todas: estaria a profissão de artista isenta de qualquer pré requisito, de modo a que qualquer um que use o arsenal tecnológico à sua disposição esteja inequivocamente exercendo a arte e sendo um artista? Cai-se aqui em um terreno minado: há que se distinguir os profissionais dos amadores no campo da arte?

Essa é uma questão séria, levando-se em conta que nos dias de hoje várias novas visões embasam essa discussão, particularmente no que toca à criação de políticas culturais públicas face às mudanças trazidas pela tecnologia. Entre essas visões, há os que conceitualmente redefinem o próprio conceito de autor de uma obra artística, apontando para a superação deste, e considerando um cenário em que a interferência e a colaboração coletivas fazem da obra uma recombinação de elementos já existentes. O autor é um coletivo e a obra um somatório. Nesse universo o direito autoral é um entrave, e o uso ilegal de obras protegidas é visto e justificado como uma espécie de apropriação social de riqueza. Sem querer aqui me aprofundar nessa polêmica, não me alinho em nada com essa visão. Para mim, qualquer obra artística é fruto da ação consciente de um autor, ação essa que exige a combinação de dois pré-requisitos básicos: um mínimo de aprendizado e de domínio formal (ou não formal) da linguagem dessa arte, e da capacidade de utilizar de forma criativa e inventiva essa linguagem. A combinação dessas duas aptidões, em doses proporcionais variadas, é ao meu ver o que define a grosso modo a atividade artística. Além disso, considero que essas capacidades não estão presentes em todos, da mesma forma que não está à disposição de todos a capacidade de exercer a cirurgia cárdio-vascular, ou a física quântica, ou o salto com vara. Não me refiro à capacidade de aprender, mas à aptidão para exercer! Felizmente ou infelizmente, a criação artística não é uma atividade para todos que se interessam por ela! E não se pode tratar questões diferentes de forma igual, com um discurso pretensamente democrático e que se auto-proclama portador de uma perspectiva popular. Isso não é democracia, o nome disso é democratismo! Isso não é ser popular, o nome disso é populismo! Além de tudo me soa no mínimo contraditória a pregação radical anti-indústria cultural, exercido por quem utiliza equipamentos da mais alta tecnologia produzidos por empresas multinacionais que hoje são o que há de mais sofisticado na estratégia capitalista, que agem da forma mais condenável, baseadas na propaganda massiva que manipula a ânsia “moderna” pelo consumo da última novidade, que é vendida a conta gotas e a preço de ouro. Munidos desse arsenal industrial high-tech, querem derrubar outra indústria, a da propriedade intelectual. São as contradições dos novos tempos! 

Não se deve confundir as coisas. Me parece bastante clara a emergência de uma cultura eminentemente participativa e colaborativa que se forma a partir de uma nova perspectiva trazida pela internet. Mudou-se a forma de atuação do indivíduo em relação à mídia, e a participação e o poder de decisão deles nesse novo ambiente gera um conteúdo basicamente construido por amadores, pelo cidadão comum. Isso levou ao surgimento de uma economia substancialmente diferente. Mas essa verdade está longe de ser isenta de interesses comerciais que extrapolam o conceito participativo dos amadores geradores de conteúdo. Esse novo capital é cobiçado por empresas como Google, MySpace, Youtube, Facebook, que nada tem de amadorismo. Aliás quando agimos participativamente aqui, nesse exato momento, estamos gerando esse valioso capital. Nós o fazemos como amadores, mas alguém profissionalmente em algum ponto irá se apropriar dele.

Vejam bem, longe de mim defender a restrição de quem quer que seja de exercer qualquer atividade, seja ela qual for. Antes de me pregarem o rótulo de elitista, acho que todos, mesmo aqueles sem nenhuma aptidão, podem e tem o direito de extrair os importantes benefícios que a atividade musical oferece. Caetano mesmo já disse: "como é bom poder tocar um instrumento". É direito de todos se expressar artisticamente da forma que lhe convém, dentro de sua capacidade, e de compartilhar o produto de sua atividade. Mas não é disso que falamos. O assunto é outro. Aqui trata-se da atuação e da interferência em um mercado, que aliás torna-se a cada dia mais complexo. Paradoxalmente, esse mercado sob a égide das mudanças tecnológicas exige cada vez mais o profissionalismo e a eficácia de ações de marketing, de auto-produção, de distribuição de produtos, de ações que permitam a visibilidade, e cada vez menos o profissionalismo na criação, passando ao seu largo qualquer critério que leve em conta a qualidade artística. O jovem artista de hoje é um auto-produtor, ainda que isso não lhe permita um mínimo de tempo para a qualificação artística. O interesse é maior em fazer "acontecer" aquilo que se faz, e muito menor em ter consciência e domínio estético daquilo que se está fazendo. O deslocamento desse eixo tem motivos óbvios: uma ação bem pensada na internet é capaz de fazer com que, de forma quase imediata, um trabalho sem qualquer consistência artística se torne um grande hit. Desculpem, não gosto de me posicionar publicamente sobre o trabalho dos outros, mas sou obrigado a dar um exemplo para tentar clarear o que estou dizendo: é bastante ilustrativo o recente boom de acessos (mais de um milhão e meio em 3 dias) de um clipe de um grupo com uma música absolutamente elementar, repetida à exaustão, com cantores pouco afinados, e onde nem mesmo a idéia central da construção da imagem com a câmera em constante movimento é original, tendo sido claramente baseada em um clipe de outro grupo (“There’s an Arc”, do sexteto canadense Hey Rosetta). A partir daí pipocam convites, matérias em jornais, datas na agenda são disputadas a tapa, e isso é tido como exemplo e se torna paradigma da capacidade de sucesso na internet. Contra minha crítica, certamente dirão: "mas isso é bacana, é independente, é música autoral".

Esse é o problema, esses conceitos passaram a ocupar o lugar daqueles próprios a se pensar a qualidade da música que se faz. Como se o fato de ser "independente e autoral" em si fosse sinônimo de ser criativo. Deixo claro que respeito e nada tenho contra esse grupo, e que desconheço seu trabalho além do clipe citado. Apenas estou exercendo aqui meu senso crítico em relação à obra que vi. Nada que não gostasse imensamente que fosse feito dessa mesma forma com minha própria obra. 

Chego assim, com esse exemplo, ao ponto de responder à minha pergunta inicial: para mim não há tecnologia, possibilidades novas de se fazer visível, ou mesmo possibilidades de gerar novos produtos, que tenham feito mudanças substanciais e conceituais no verdadeiro pega-pra-capá do mercado, no referente ao espaço da criação artística nesse mercado, seja ele virtual ou não. Certamente vão dizer que, profissional ou amador, deixemos esse julgamento ao mercado. Pois não é isso que estou tentando dizer aqui? Esse julgamento é feito pelo mercado desde sempre!! Qual é então a grande novidade dos novos tempos? Naquilo que toca a criação artística, mudam-se os contextos e as estratégias, mas a batalha é a mesma de sempre em buscar visibilidade em um espaço cada vez mais entupido (muito mais entupido a cada dia e vai se entupir cada vez mais, já que "a arte é ofício de todos") em que os critérios permanecem passando longe dos musicais e da criação.

No meu entender, há um único caminho capaz de mudar esse quadro, aliás ainda pouquíssimo discutido, embora esteja na ordem do dia: o investimento pesado em educação em geral, e particularmente em educação musical. A obrigatoriedade da educação musical nas escolas, se exercida com seriedade, pode ser um fator real de mudança, independente de qualquer avanço tecnológico. E a médio e longo prazo. Os muitos hoje que se arvoram em defender que a criação artística na música está dentro das possibilidades de todos, poderiam ser mais efetivos caso se preocupassem mais com a única maneira capaz de trazer essa afirmação para o mundo das possibilidades reais: o ensino, a capacitação para o exercício criativo! Isso sim é transformador!!! Isso, mais que qualquer consequência da tecnologia, é de fato fomentador da atividade criativa, e único parâmetro possível para se pensar em indivíduos capazes de criar artisticamente e avaliar e interagir livremente a criação de outros. Mais que no vício do mercado direcionado, o que creio é na capacidade de escolha da sociedade instruída. Conhecimento é liberdade!!

Fui muito longo nessa nota. Não era essa a intenção, mas a concisão não está entre os meus dons. Quisera eu ser Caymmi! Minha intenção foi apenas a de opinar sobre questões que interferem profundamente em minha profissão. Aos que tiveram interesse pra chegar até aqui, só queria dizer que, nesse caminho da educação, certamente é possível e alentador se pensar em tempos realmente novos. Só espero que eu e minha obra estejamos ainda vivos até lá!

Sérgio Santos é compositor, cantor e violonista