Minas Gerais sempre foi e continua sendo um celeiro de músicos, embora nem sempre fossem divulgados como merecem fora do seu estado. Entretanto, como jornalista carioca ligado à música, há muitos anos conheci e/ou travei contato através de discos, shows ou entrevistas com inúmeros músicos e compositores mineiros que muito contribuíram para a evolução e sedimentação da música instrumental interpretada em Minas Gerais. Entre muitos outros, Pacífico Mascarenhas, Toninho Horta, Wagner Tiso, Pascoal Meirelles, Nivaldo Ornelas, Yury Popoff, Chiquito Braga, Caxi Rajão, Gilvan de Oliveira, Lena Horta, Juarez Moreira, André Dequech, Geraldo Vianna, Célio Balona, Nelson Ângelo, Esdra “Neném” Ferreira, Cleber Alves, Ivan Corrêa, Túlio Mourão, Weber Lopes, Flávio Henrique, Márcio Hallack, Glaucus Inx, Celso Adolfo, Marco Antonio Araújo, Chico Amaral, Mauro Rodrigues, Milton Nascimento, Fernando Brandt, Marku Ribas, Clovis Aguiar, Milton Ramos, Enéias Xavier e Marco Antonio Guimarães, a lista é infindável.

O lendário Clube da Esquina marcou sua trajetória a partir dos anos 60, quando novos talentos da juventude musical mineira despontavam para deixar sua estampa definitiva em discos históricos e memoráveis que contribuíram para influenciar inúmeros novos valores. Tudo começou quando Milton Nascimento e os irmãos Márcio, Marilton e Lô Borges reuniram-se dando início a um movimento musical que marcou época, aos quais seguiram-se Tavinho Moura, Flavio Venturini, Toninho Horta, Wagner Tiso, Beto Guedes, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, etc. Seu primeiro LP, “Clube da Esquina”, de 1972, lançado pela EMI, foi um marco definitivo que implantou a música e as idéias dos talentosos jovens, ensejando a todos eles iniciarem carreiras de sucesso, nascendo, entre outros os conjuntos 14 Bis e O Terço.

Por sorte do destino, o futuro reservava-me uma das maiores e mais gratas surpresas da minha vida jornalística ligada à música que permitiu-me conhecer, ouvir e vivenciar de perto a qualidade, o talento e a renovação de um admirável celeiro de músicos mineiros ao ser honrado com o convite para ser jurado do “Prêmio BDMG-Instrumental” de 2001, promovido pelo “BDMG-Cultural”, um evento da maior importância prestigiando a música instrumental mineira.
Na ocasião, fiquei impressionado não somente pela alta qualidade dos concorrentes, assim pela organização do evento, com todos os participantes apresentando-se dentro do horário estabelecido pela coordenação do evento, sem falhas ou atrasos. Sem dúvida alguma, o trabalho da coordenadora Malluh Praxedes e seus colaboradores diretos frutificou a passos largos, colocando o “BDMG-Instrumental” como o maior e mais expressivo evento da música instrumental brasileira em nosso país.

Criado em 2001, seu objetivo foi incentivar e premiar compositores de música instrumental que sejam mineiros ou residentes no Estado há mais de dois anos. Para concorrer, o músico deveria inscrever-se com duas músicas autorais e um arranjo. No festival, os músicos deveriam apresentar-se com as mesmas músicas inscritas e com uma formação de, no máximo, cinco músicos mo palco.

Tendo o privilégio de acompanhar o Prêmio “BDMG-Instrumental” como jurado desde seu primeiro evento, venho observando que seu nível qualitativo se aprimora a cada ano, apresentando uma plêiade de instrumentistas talentosos que enriquecem sua programação, dando aos novos valores a oportunidade de se projetarem no cenário nacional. Deve ser realçado que o nível dos concorrentes, de um modo geral, sempre dificultou sobremaneira a tarefa do júri para selecionar seus vencedores. Como entusiasta desse grandioso projeto sem similar no Brasil, desde a primeira hora constatei que por sua capital importância tem sido divulgado nos principais veículos de imprensa de Minas Gerais e de outros estados, ganhando ramificações em outras cidades do país.

A partir de então, passei a divulgar em meus artigos, sempre que possível, a qualidade e o alto significado “Prêmio BDMG-Instrumental”. Tendo o privilégio de acompanhar o evento anualmente, sendo distinguido com a renovação do convite para compor o corpo de jurados, compareci às 9 (nove) edições desse que é o melhor e mais significativo evento de música instrumental realizado em nosso país.

Por todos os motivos apontados acima, e pelo entusiasmo que o “BDMG-Instrumental” sempre motivou-me, decidi relatar neste artigo a importância desse significativo evento no cenário da música instrumental mineira e, por extensão, da brasileira, proporcionando-me anualmente ouvir, apreciar e conhecer uma plêiade de músicos mineiros, cuja maioria jamais teria oportunidade de ouvir ao vivo no Rio de Janeiro, onde resido. Por isso, dedico ao “BDMG-Instrumental” uma retrospectiva da sua fulgurante trajetória.

Por sua importância que cresce a cada ano, é imperativo que o “Prêmio BDMG-Instrumental” seja mantido e preservado para a grandeza, expansão e divulgação da riquíssima música instrumental brasileira, para a qual Minas Gerais sempre contribuiu com uma legião de artistas talentosos. Com esse propósito, elaboro uma retrospectiva desse evento, que no próximo ano, 2010, realizará sua décima edição celebrando uma década de vitoriosas conquistas para a música instrumental brasileira.

A primeira edição do “BDMG-Instrumental” realizou-se nos dias 27, 28 e 29 de abril de 2001, no Teatro BDMG. De acordo com o regulamento, cada um dos vencedores executou três composições de sua autoria. Foram eles o guitarrista Celso Moreira (interpretando “Contra o vento”, “Romântica” e “Cores”); o compositor e arranjador Flávio Henrique (com “Monte Pascoal”, “Idílio” e “Iluminuras”); o violonista Geraldo Vianna (com “...Era Madrugada”, “Aquela Estória” e “Vamo vê o Congo”), e o violonista Wilson Lopes (com “ICB”, “Flávio” e “Fim de Tarde”).

Wilson Lopes apresentou composições influenciadas pelo jazz, como “ICB” e “Flávio”, com destaque para o sax tenor de Chico Amaral, letrista de sucessos da banda pop Skank. Celso Moreira (irmão do também violonista Juarez Moreira) condensou alta dose de lirismo à mineira em “Romântica”, dando um toque jazzístico a “Contra o Vento”. Explorando bem seus arranjos para um trio formado por violão, baixo e bateria, Geraldo Vianna exibiu um trabalho coeso, no xote “Aquela História” e em “Vâmo vê o Congo”, inspirada nas Folias de Reis. Já o compositor Flávio Henrique (que estreou em 1994, com um álbum de MPB pela gravadora Velas) surpreendeu com arranjos ousados para um quarteto de saxofones em composições como “Monte Pascoal” e “Iluminuras”.

O segundo evento realizou-se nos dias 28, 29 e 30 de julho de 2002, no Teatro Izabela Hendrix., sendo proclamados vencedores o guitarrista/violonista Edu Negrão interpretando “Montanha”, “Paúba” e “São Sebastião”; o baixista Ezequiel Lima em “Continental Dancing”, “Trapézio” e “Light and Bluelero”; o pianista Márcio Hallack com “De Manhã”, “Free-Campeão” e “Forró para Jojó” e o cavaquinista - revelação Warley Henrique com “Desastrado”, “Recomeçando” e “Prá Inglês ver”.

O terceiro evento foi realizado no Teatro Izabela Hendrix, nos dias 16, 17 e 18 de maio de 2003, tendo como vencedores o violonista/guitarrista Beto Lopes interpretando “O Brilho nos olhos”, “Fim de Tarde” e “1/2/3”; o saxofonista Cléber Alves em “Baião”, “Rafael” e “De volta a Belo Horizonte”; o baixista Enéias Xavier em “Saudade de Recife”, “Reunião e união” e “Choro do Gordo”; e o violonista Ladston do Nascimento em “Paris noturna”, “Veredas” e “Caminhos de Santiago”.

A quarta edição foi realizada nos dias 16, 17 e 18 de abril de 2004, no Teatro Izabela Hendrix, tendo como vencedores os pianistas Rafael Martini e Antonio Carlos Bigonha, o Duo Cordas e Janelas dos violonistas Márcio de Britto e Roberto de Oliveira e o violonista Weber Lopes. O violonista Juarez Moreira recebeu o “Prêmio Marco Antonio Araújo” pelo seu CD “Juarez Moreira – Solo”. A comissão julgadora deu o Prêmio de Menção Honrosa ao baixista Ivan Corrêa pelo seu empenho e desempenho como instrumentista e ao baixista Adriano Campagnani pela sua performance em solo.

Os vencedores de 2005: foram Estevão Teixeira (flauta), Magno Alexandre (guitarra), Luiz Henrique (violão e guitarra) e Renato Kéfi (piano). O baixista Enéias Xavier e o guitarrista Magno Alexandre foram agraciados com o “Prêmio Marco Antônio Araújo” como “Melhor CD Independente de Música Instrumental”, respectivamente com os CDs “Jamba” e “Maracatuaba”.

A sexta edição foi realizada nos dias 21, 22 e 23 de abril de 2006, no Teatro Sesiminas, sendo vencedores o violonista Celso Moreira interpretando “Chorinho para Alice”, “Helena” e “Choro para Juliana”, a dupla do baterista Esdra Nenem Ferreira e o flautista Mauro Rodrigues tocando “Ogum”, “Oxossi” e “Xangô”, da “Suite para os orixás”, o pianista Rafael Macedo interpretando “Música para musicar a menina que se cobre de mistério”, “Desisto e rio” e “Desisto e choro (Mil Vozes, mil Sons)” e o guitarrista Marcelo Morais tocando “Vinte e três de Maio”, “Sammy” e “Liz”.

A sétima edição realizou-se no Teatro Sesiminas em 27, 28 e 29 de abril de 2007, sendo vencedores os pianistas Márcio Hallack, Antonio Loureiro e Gustavo Figueiredo, e o baterista André Limão Queiroz. O prêmio de Melhor Arranjo coube ao pianista Marcelo Magalhães Pinto em “Casa Forte”; o prêmio de Melhor Empenho e Desempenho foi para o baterista Hudson Vaz, e o de Melhor Instrumentista foi outorgado aos saxofonistas Glaucus Linx e Chico Amaral. O Prêmio “Marco Antônio Araújo” de Melhor CD Instrumental do Ano coube ao duo Esdra “Neném” Ferreira e Mauro Rodrigues com “Suíte para os Orixás”.

Continua...

José Domingos Raffaeli é jornalista e crítico musical