Esse trabalho desenvolvido por Odete Ernest Dias precisa ser melhor conhecido e avaliado. É importante para que se tenha contato com a evolução da alma musical de Minas.

Os viajantes Spix e Martius, no início do século 19, andaram por essas Minas Gerais e tudo o que viram – em termos de humanidade, costumes, geografia, botânica, zoologia, flora- eles descreveram em livros. É interessante o relato que fazem de um fato ocorrido quando Martius esteve em Brejo dos Salgados, às margens do rio São Francisco, para prestar assistência médica à esposa de um Capitão. Ali, depois de cumprida a missão, ele assistiu a uma Festa da Rainha com missa, procissão e um lauto regalo, arranjada por uma rica fazendeira das proximidades. Eis o relato deles:
“Também encontramos aqui entretenimentos musicais, isto onde menos podíamos esperá-los. Um sertanejo, que habitava vinte léguas a oeste de Salgado, e casualmente tinha ouvido falar de nossa prática de amadores de música, mandou um mensageiro, para pedir-nos o prazer de tocar conosco um quarteto. Ao cabo de alguns dias, apareceu o moreno Orfeu das selvas, à frente da mais estranha caravana. Às costas da mula, trazia ele um rabecão, rabecas, trombetas, estantes para música, e, como provas de sua dedicação, a mulher e os filhos. Dois de seus vaqueiros tocaram as partes secundárias e, com jovial segurança, atacamos o mais antigo quarteto de Pleyel. Que mais alto triunfo podia celebrar o mestre do que a expressão de sua música ressoar aqui, no sertão americano? E, com efeito, o gênio musical pairava sobre a nossa tentativa, e tu, excelente melômano, João Raposo, viverás sempre na minha memória, com as tuas feições animadas por triunfante enlevo”. ( J.B. von Spix e C.F.P. von Martius- 1818).

É do mesmo naipe o narrado por George Garner ( 1836-1841): “Na primeira tarde, ao passear pela vila fiquei surpreendido de ouvir tocar rabeca em quase todas as casas. É a rabeca um instrumento usado exclusivamente pelos barbeiros no Rio e outras grandes cidades: mas no interior é raro encontra-lo, porque a guitarra é muito preferida tanto por homens como por mulheres. Em São Romão, porém, a moda é diferente e a educação de uma moça não está completa senão quando sabe manejar o arco”.

Depois das mulheres de São Romão, maestras na arte de tocar rabeca, houve o tempo em que não havia casa de família ou sede de fazenda que não tivesse seu piano. Coisa de gente de muita posse, que adquiria o instrumento na Europa, de onde ele vinha de navio e, depois de muita estrada de terra, de dias e dias num carro de boi ou carroça, chegava a grande maravilha que só os dedos finos e leves da filha do dono tocariam.

A viola, já são outras histórias. Que passam pelos desafios e pelo pacto com o demo. Que ninguém confirma a existência, mas todos não desacreditam. Ainda mais que essa é uma lenda que vem de longe, no tempo e no espaço, está em toda cultura que se preze. Eu sei é que violeiro é que não falta nessas Minas Gerais. Para onde o olho e o andar apontem, lá vem algum sujeito carregando sua ferramenta. Segundo Luís da Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, foi o primeiro instrumento de cordas que o português divulgou no Brasil. “ O século do povoamento, o XVI, foi a época do esplendor da viola em Portugal, indispensável nas romarias, arraiais e bailaricos, documentado em Gil Vicente e nos cancioneiros. A orquestra típica das festas jesuíticas era a viola, o pandeiro, o tamboril e a flauta.

Animador dos bailes populares em todos os quadrantes brasileiros. Recebendo de Espanha o violão, como a viola vulgarizada pelos mouros, o português denominou-o no aumentativo de viola, instrumento-rei.”( Páginas 791 e 792 do citado Dicionário). Sobre viola e violão é preconceituosa a visão do general Raimundo José da Cunha Mato, em seu “ Itinerário, Minas Gerais a Goiás”: “todo vadio que possui uma guitarra ( violão) tem seu pão ganho sem necessidade de trabalhar, e encontra sempre quem o queira em casa.” Desde muito, e até hoje, tem gente que continua acreditando e dizendo que a profissão de músico não é trabalho.

Na formação do mineiro, a música é muitas vezes acompanhada pela religião. Assim, as músicas cantadas em latim, o canto gregoriano, as datas solenes comemoradas pela Igreja Católica marcaram profundamente a nossa identidade.
Outras festas importantes, e essas mais diretamente influenciando o povo e contando com sua participação efetiva, são as do Rosário, as Folias de Reis e toda essa gama de momentos em que a população assume o que é dela. Os cantos, os ritmos, as danças são resultado de uma mistura de cultura e povos.

A mistura de tradições católicas com elementos místicos africanos encontrou aqui, nessa farofa de cores e semblantes que somos, o lugar ideal para se solidificar. A riqueza da música mineira vem daí; é do beber nessas tradições que está o principal veio de nossa musicalidade. O resto vem das diferenças culturais das diversas regiões, a intuição e a criatividade de cada um, o ouvido atento para todos os sons, a mente aberta para o que houve e o que está vindo.
Minas gerais, por ser o estado que mais tem fronteiras com outros estados, sempre influenciou e foi influenciada por seus vários vizinhos. A química dessa constante transfusão dá maior gás para a nossa cultura profunda e interior.

Faltou falar das bandas de música que, ainda hoje, estão espalhadas pelo nosso torrão. As cidades se orgulham de suas furiosas. Nascidas das corporações militares, logo elas abriram o leque de suas apresentações e formação. Não há festividade musical, seja de que origem for, que não tenha a sua presença. Além de alegrar a população durante todo o ano, elas são formadoras de músicos profissionais. Orquestras e conjuntos buscam ali seus componentes.

Num tempo não tão distante, além de executar os dobrados, marchas e outras composições alheias, seus maestros eram também autores. Muita partitura de qualidade deve estar perdida por aí, nos porões das igrejas ou das sedes das corporações, muito papel se queimou, se jogou no lixo ou foi comido por traças ou pelo tempo. A maioria dessas agremiações foi mal preservada, pouco cuidada, mas elas insistem e persistem, agregando novos músicos, alegrando novas crianças, embalando as lembranças de todos nós.

E eu não poderia deixar de lembrar de outra tradição nossa, símbolo de nossa afetividade e companheirismo, de nosso jeito lírico e boêmio de ser: as serenatas, as serestas. As modinhas e canções, feitas e cantadas para as namoradas, em noites de lua cheia ( ou noites de qualquer lua, o que vale sempre é a intenção) ou nas homenagens sociais, são indeléveis e permanecem vivas em inúmeras cidades de Minas. O jeito mineiro de cantar é o jeito mineiro de amar.

Enfim, depois de descrever tantos relatos de viajantes e pesquisadores que percorreram nosso território e descobriram para nós a musicalidade mineira, a mineiridade musical, eu me atrevo a reportar a emoção que tive ao assistir a um festival de corais que anualmente se realiza em Belo Horizonte. É emocionante ver o povo mineiro cantando a sua música. A cidade invadida, possuída pelo canto de brasileiros vindos do interior, de fora de Minas e da Capital.Os corais tomam conta de nossas praças e espalham harmonia, melodia e poesia pelas praças, ruas e avenidas. O canto que bate em Beagá vem de lugares distantes; de Veredinha, por exemplo. Mais de trinta crianças, a maioria meninas, colocam em estado de graça o público que assiste ao som e ao gestual de sua apresentação. Não sei se vocês sabem de Veredinha. É uma pequena cidade fincada no meio do vale do Jequitinhonha, que tem Diamantina como porta de entrada e desfila povoações com nomes singelos como Capelinha, Minas Novas, Turmalina e Carbonita.

Pois é de lá, do fundo mais fundo do vale, pobre materialmente e rico em cultura, que o maestro Tadeu Oliveira traz o sublime cantar de suas meninas e meninos. Ouvir Itamarandiba, minha e de Milton Nascimento, cantada e interpretada por pequenos anjos negros, é de arrepiar.

O fazer musical na terra das montanhas, sertão e gerais guarda todo este acervo. É com ele que os músicos, cantores e compositores mineiros de hoje em dia contam no momento em que iniciam sua travessia. Com esta rica base, é só acrescentar os conhecimentos novos, ouvir o que se faz nos outros mundos e seguir a viagem de encantamento.

Fernando Brant é cronista e poeta